18.9.14

Olivier Assayas fala sobre Kristen em entrevistas


 Vogue Paris (Agosto)



 Glamour (Setembro) – França



Cineforum Web

Neste ponto é natural perguntar sobre Kristen e sua personagem, Valentine, a mais ambígua e elusiva do filme. Como você escreveu uma figura tão passageira e indefinida, e capaz de desaparecer da cena, mas ao mesmo tempo deixar uma marca indelével da ausência do mistério?

Olivier Assayas: Todos os personagens de Sils Maria foram escritos de forma muito precisa, mas ao mesmo tempo modificados pelos atores. O papel de Valentine foi, na verdade, desenhado para Mia Wasikowska – e tenho certeza que ela teria feito um bom trabalho – quando Kristen o pegou (o que, para ser honesto, foi a escolha inicial, depois ignorado por várias razões e voltou à tona no momento que Mia foi forçada a desistir do filme por problemas de contrato com outra produção) foi tomada uma nova forma. A ambiguidade da personagem obviamente tem a ver com o que eu escrevi, mas também a interpretação da Kristen; se ela é apropriada sutilmente, com inteligência, e tive que me limitar por sugerir a interpretação de uma personagem tão pragmática e quase brutal, mas
 também carinhosa. Para mim, foi importante sentir a empatia em direção à Valentine, porque o reconhecimento do espectador em relação à ela é essencial. Em Sils Maria, o identificador se move continuamente de um personagem para o outro, mas Valentine é privilegiado; num sentimento que tenho que me senti mais próxima a ele do que da personagem de Juliette, apesar da diferença de idade. O que me interessou em seu desaparecimento foi seu eco, sua ressonância: Valentine desaparece da cena, mas isto não acaba no filme, o espectador pode continuar a pensar nela quando ela sair novamente…

Quanto à relação entre o corpo e a ausência, você não acha que durante os anos seus filmes foram feitos menos direcionados e mais físicos e discursivos, também por causa do mergulho na narrativa de televisão Carlos? Neste sentido, parece, para mim, que Sils Maria alcança uma síntese delicada entre estes aspectos de seus filmes, da fala antropocêntrica, e a narrativa…

Olivier Assayas: A verdade é que sim, Carlos é um filme de TV, mas o filme que já fiz: em reação ao formato da televisão, na verdade, senti a necessidade de me empurrar para o cinema. Eu usava lentes maiores e mais largas, porque eu queria filmar paisagens, apartamentos e espaços onde a decoração é crucial. Até aquele momento eu só tinha usado lentes longas, com um efeito abstrato, mas com Carlos eu fui forçado a me abrir tanto quanto o possível, abrir, abrir, abrir… até que você chegue a reinventar minha relação com o espaço. Daquele tempo em diante eu não mudei, eu quero filmar com mais perspectiva e ter uma presença maior de corpos nas filmagens. Antes filmando somente rostos, eu só estava interessado neles, mas agora quero ter o corpo inteiro em uma nova e maior satisfação para mim.

Isso foi de suma importância com Kristen, por exemplo, porque ela usa se corpo como uma dançarina. Ela tem uma mobilidade extraordinária e modernidade no uso físico, quase parece que funciona, mas como você descansa na cena é magnético, muito impressionante.

Cinemateaser Magazine (França) – Julho


O gênero do filme é bastante inclassificável. Ele começa como uma sátira do tipo All About Eve de Mankiewicz, depois torna-se um filme numa câmera Bergmanian, antes de tomar uma caminho surpreendente e uma virada cômica. Como se o filme se transformasse progressivamente durante as filmagens e tinha se tornado incontrolável…

Olivier Assayas: [Risos] Você sabe, filmes sempre são incontroláveis! Eu acho que a singularidade de Sils Maria é ser focado num encontro entre duas pessoas. Não dois personagens, mas realmente duas pessoas: Juliette Binoche e Kristen Stewart. Em um ponto, o papel da Valentine era para ser interpretado por Mia Wasikowska. Eu adoro esta atriz, mas isso resultaria num filme completamente diferente, talvez obscuro, mais disturbador. Kristen, na verdade, trouxe o humor do filme. Eu a vi se abrir, se libertar na frente de Juliette. Eu acho que nunca a vimos tão radiante. Eu penso que o encontro dela com Juliette foi cheio de química. Então, a mistura de gêneros no filme realmente vêm da experiência de filmar e o que as atrizes me deram. Eu gosto da ideia de que Sils Maria, seriamente influenciado por Fassbinder e Bergman, é um filme que explora o humano com leveza e humor.

Então, para você, é uma comédia?

Olivier Assayas: Sim, mesmo que o assunto não seja divertido. Eu falo sobre envelhecimento, você sabe! Mas, de alguma forma, eu constantemente empurrei as filmagens para a comédia. Eu estava sentindo que Juliette e Kristen estavam na alta demanda disto.

Esta dualidade, Kristen Stewart comenta disso no filme. Nós sentimos que na personagem de Chloe Moretz, ela fala sobre seu próprio status em Hollywood. O diálogo, às vezes, até mesmo se refere ao que ela experimentou, especialmente este escândalo. Isto é muito disturbador e muito surpreendente para tal atriz famosa se expor.

Olivier Assayas: O crédito é inteiramente dela. Eu conheci Kristen pelo produtor de Na Estrada, que também é o diretor deste filme. Ele me importunava que eu devia conhecê-la. Eu não sentia que este tipo de projeto poderia interessá-la e sua fama parecia, para mim, contradizer o projeto do filme. Eu estava errado, é claro. Ela leu o roteiro, nos conhecemos. Eu imediatamente gostei do entusiasmo dela. Mas eu não sabia como abordar a questão de papéis com ela. Então timidamente, lhe fiz a pergunta. Ela nem tinha considerado o papel da estrela. Ela queria a assistente. Eu disse “Você tem certeza? Porque isso irá produzir uma coisa desconfortável!” Ela olhou para mim e me disse: “É precisamente isto que eu quero!” Eu acho que ela entendeu mais rápido do que eu a desordem que esta personagem podia criar. Ela rapidamente tomou possessão do meu roteiro. Kristen tem uma força verdadeira, um humor que não estamos vendo o suficiente nos filmes.


Lemauvaiscoton (França)

Quando você escolheu Kristen Stewart, você optou pela atriz ou pelo fenômeno que ela representava?

Olivier Assayas: Ambos! A especificidade deste filme é que há uma dimensão ficcional e uma dimensão completamente documentada no sentido que nunca esquecemos que Juliette Binoche é Juliette Binoche, Kristen Stewart é Kristen Stewart, e Chloe Grace Moretz é Chole Grace Moretz. O que nós sabemos sobre elas ressoa dentro do filme, torna-se uma dimensão adicional. A razão pela qual eu escolhi Kristen originalmente não é essa, é simplesmente porque ela é a perfeita encarnação da personagem. Mas é verdade que eu precisava que Juliette ficasse cara a cara com uma personagem que é igual a ela, não alguém que está felizmente pasmo na frente dela, mas alguém representando uma força, também uma ameaça, para a atriz Juliette Binoche. Kristen é uma garota jovem que está no auge de sua fama, ela é intimidante e também tem um tipo de dureza, severidade. Aconteceu que eu já cruzei caminhos com ela várias e várias vezes por causa de Charles Gillibert, o produtor do filme, que também tinha produzido Na Estrada de Walter Salles (2012) e meu filme anterior, After May, estava viajando pelos festivais durante o mesmo período. O que eu vi dela mostrou que ela tinha uma singularidade, uma força, algo muito diferente das atrizes que eu já conhecia. Havia algo nela que o cinema ainda não tinha compreendido… O que é corajoso é seu ato de vir fazer este filme, neste estágio de sua carreira, nas profundezas da Suiça e sem possibilidade de retornar para Hollywood nos fins de semana, no meio de uma equipe do cinema europeu que trabalha muito diferente das quais ela conhecia antes. E também acho que ela teve a modéstia de ir até Juliette Binoche por puro desejo de aprender, porque ela sentiu que isso podia abrir um novo espaço para ela…

No contrário, Julliette Binoche sabia o que Kristen Stewart representava?

Olivier Assayas: Ela sabia muito bem. Mas ela esperava estar na frente de alguém tão talentosa e intensa? Eu não creio nisso… O cenário gravita ao redor desta personagem problemática da Kristen e eu acho que isso estimulou Juliette.

Precisamente, por causa da relação entre essas duas personagens, nós podemos sentir que o filme podia ter tomar direções muito diferentes. Como você trabalhou para manter um balanço linear e bastante simples?

Olivier Assayas: Vamos dizer que as nuances entre as duas mulheres pertence ao relacionamento construído no set. Eu, na verdade, escrevi um cenário despojado. Eu gosto de deixar um pouco de espaço para os meus atores. Nós não filmamos exatamente na ordem cronológica, mas ainda assim, começamos com a cena do trem que ajudou a lançar os personagens, depois filmamos tudo que não era situado nas montanhas para finalmente finalizar Sils Maria. Basicamente, filmar sem parada fez que as duas atrizes se tornassem acostumadas uma com a outra, elas estavam prontas para embarcar no que era o principal assunto do filme. Dia após dia, cena após cena, eu podia senti-las tendo liberdades, reinventado cenas, mudando-as de forma que eu não tinha, necessariamente, antecipado. Por exemplo, este momento onde as duas mulheres falam sobre a reunião com Jo-Ann e dão risadas juntas no hotel. Esta cena não foi escrito como você viu na tela. É apenas o que acontece após a última briga. O que acontece naquele ponto, já é, de uma forma, a separação. Mas as atrizes decidiram fazer deste momento, o momento de cumplicidade o mais íntimo do filme, e isso traz uma densidade estranha a cena. Eu hesitei porque senti que ela queriam aquilo e ao mesmo tempo que elas estavam com medo de perder o controle. Esta relação foi realmente estabelecida durante as filmagens. Uma fantasia estava sendo nos estabelecer entre elas e tivemos que usar isso. Então, tive que ajustar os diálogos constantemente, ou até mesmo deixá-los para elas fazerem isso.

Vogue Paris (França) – Agosto

A RAINHA KRISTEN

A aparição de Bella Swan de Crepúsculo nos créditos do novo filme de Olivier Assayas com Juliette Binoche deixou muitas pessoas intrigadas. Após a exibição em Cannes, o veredito foi muito claro: Kristen Stewart rouba a cena. A queridinha de Hollywood, cuja vida privada os tabloides babam em cima, floresce de forma muito sutil, nesta pequena joia do Cinema Europeu Independente. Para a Vogue, Olivier Assayas explora seu encontro com a jovem atriz que possuí uma aura sobrenatural e universal. Pela estrada, um mistério, “A verdadeira Kristen“…

Eu acabei de filmar um filme com ela, mas não posso dizer que conheço Kristen Stewart, isso pode ser devido a sua personalidade, e também à minha, e isso também se refere, sem dúvidas, a simpatias mais profundas, mais íntimas, um pouco difícil de formular, aquelas que me trouxeram a ela e aquelas trouxeram ela a mim. Outras pessoas sabem da carreira dela melhor do que eu. Para mim, é um processo mais longo, mais vago e, o que provavelmente é originado de sua aparição num filme de Sean Penn, filmado por Eric Gautier e adaptado do texto de Jon Krakauer: era a figura de uma garota (muito) jovem que mantive comigo, além das verdadeiras qualidades de Na Natureza Selvagem.

Portanto, era difícil imaginar que poderíamos cruzar o caminho um do outro, mesmo sendo no mundo cinematográfico como na vida real, eu acredito em nada além de curtos circuitos. Este deve tudo a Kristen Stewart e à ousadia e o espírito de rebelião que a define. É isso que a faz uma grande atriz? Essa não é a pergunta, é possível, mas não é essencial: isso é sobre tudo que a faz viva, o que a faz perfurar a tela com esta intensidade, esta violência também, que destrói tudo que pode ser tépido, falso, jogado ao redor da zona onde ela irradia.

É ainda mais perturbador, considerando que ela não vem de algum subúrbio aleatória, ou da marginalidade, ela é de Los Angeles, o coração da indústria, não em toda sua aristocracia, mais por sua conservação da classe média. E ainda assim, ela é determinada pela divergência, uma liberdade de movimento quase selvagem e, que não se deve à algum ponto previsível de referência, seja pela moral ou esteticamente agradável. Sendo uma pessoa sensata, ela não deve nada a ninguém. Bella Swan em “Crepúsculo”, uma silhueta em “Na Estrada”, ou carregando o peso de “A Branca de Neve e o Caçador” em seus ombros, ela sempre está inteiramente lá, sem qualquer distância, sem qualquer nuance, sem julgamentos, nesta obviedade que ela tem e a faz passar pelo mundo do cinema nestas diagonais inspirada pela intuição animal. Ela tem um alter-ego, assim como todas as atrizes, mas isso pode ser mais extremo com ela. Há sua intimidade, protegida por uma concha grossa. E a que foi desenvolvida no segredo mais bem guardado, aquela escondida à vista de todos, porque ela cresceu nos sets. E, então, há outro que ela torna no momento que a câmera começa a rolar, a quem ela dá seu poder completo, esta verdade nua que temos que perguntar como ela adquiriu, de onde isso vem e exata natureza da consciência que ela podia ter disso.

Charles Gillibert, que produziu “Sils Maria”, estava com Nathanael Karmitz, o produtor de “Na Estrada”, é graças a ele que encontrei Kristen pela primeira vez. Uma noite no Silencia, não o melhor lugar para encontrar alguém. Encontramo-nos novamente muito mais após conversarmos no Skype e decidido que trabalharíamos juntos; era em circunstâncias muito mais abstratas novamente, no desfile da Chanel no Grand Palis, as modelos estavam envolvidas em ruínas inspiradas pelos desenhos de Enki Bilal, ela foi representada, para dizer o mínimo. Nós fomos ao desfile juntos, tentando tão duro quanto pudemos ter algum tipo de conversa natural. No dia seguinte, almoçamos no restaurante de um hotel – uma fã fetichista roubou as chaves da minha bicicleta, pensando que elas pertenciam a Kristen. O mais essencial estava no implícito; e o explícito tentou como um todo não danificar o que não foi dito. Ela estava satisfeita, eu acredito, de ter a chance de se aventurar num território desconhecido, o que ela tinha provavelmente fantasiado, mas não estava familiarizada com isso, o território do Cinema Europeu Independente. A ser levada cara a cara com uma atriz cuja liberdade tinha a inspirado, Juliette Binoche. Quanto a mim, me senti estranhamente instável, como se ela soubesse melhor do que por que estávamos aqui. Como se as coisas fossem muito mais claras para ela, o que é sua força, à propósito, tudo é muito mais evidente para ela, ela manteve essa habilidade que crianças tem de olhar para o mundo com raios lasers. Para mim, nada era simples. À propósito, eu acho que é só quando estou no set, olhando, não para os atores, mas para os personagens que eles estão interpretando que estão no meio do caminho entre eu e eles, que consigo finalmente juntar as peças do quebra-cabeça. Não estou dizendo isso até agora, eu tenho tido confiança zero na minha intuição, pelo contrário, eu acredito nela quase ao ponto de irresponsabilidade, somente eu sei disso no mundo do cinema, não são os elementos isolados que contar, mas sua alquimia. Eu sabia que Kristen tinha isso nela para estimular e ainda empurrar Juliette, eu não sabia se ela podia ser empurrada de volta por Juliette, se ela saberia como se colocar em perigo, se ela seria capaz de visitar novas áreas de si mesmo, o que podia abrir portas do cinema ainda inexploradas por ela.

Há algo misterioso nesta relação que construímos – incoscientemente – com a presença que persegue os filmes. A filmagem de “Sils Maria” já estava em progresso e a silhueta da estrela de “Crepúsculo” já estava desaparecendo, reduzida para uma aura sobrenaturalmente preciosa, quando eu lembrei de ver Kristen há um tempo em “O Quarto do Pânico”, não o melhor filme de um diretor enorme da nossa época, David Fincher – Ela interpretava a filha de Jodie Foster. Eu tinha esquecido. Eu estava pensando mais sobre “The Runaways – As Garotas do Rock”. Uma biografia que não foi bem feita pela banda criada por Kim Fowley e de onde Joan Jett veio. Kristen a interpretava – por quem eu sempre tive uma pequena queda, desde Cherry Bomb, na verdade, (Eu sou o único que me importei quando ela tocou num filme desconhecido de Paul Schrader, “Light of Day”?) Ela a fez vir à vida com esta verdade, que também era uma época desconhecida para ela, e que eu pensei que seria mantida. Como muitas pedras brancas que pavimentaram o caminho do meu caminho, não em direção à Kristen, mas em direção à este papel dela que é sempre pesquisando, por algumas zonas inabitadas, uma vez mais expostas e menos visíveis no cinema hoje.

Eu sempre admirei a falta de medo das atrizes. E, em particular, quando elas falam sobre aventuras e o confronto do desconhecido. Juliette Binoche que saiu de seu caminho para conhecer Abbas Kiarostami, Isabelle Huppert, que segue Brillante Mendoza nas Filipinas, no coração da selva. Ou, novamente, Maggie Cheung que veio para Paris para filmar, longe de suas produções em Hong Kong, o filme de um autor francês, cuja notoriedade ainda era confidencial, eu mesmo. Eu pensei frequentemente sobre elas quando estava observando Kristen durante as filmagens de “Sils Maria”, eu não fiz as coisas fáceis para ela, o set foi situado em algumas das regiões mais isoladas na Europa, Leipzig, depois Engadine e finalmente South-Tyrol. Ela estava sozinha na maior parte do tempo – os tabloides falaram muito sobre uma término recente – uma assistente para cada um da equipe, é claro, sorridente e devota. Não é somente o isolamento geográfico – difícil para voltar a L.A. para o fim de semana, no entanto – ou a situação de vulnerabilidade que ela se colocou. Isso vai sem dizer que as logísticas de filmagem não podiam oferecer o conforto que ela estava acostumada a ter – Nas montanhas, nós podemos até mesmo dizer que isso era uma economia. Eu não quero dizer que ela estava acostumada com um casulo e que ela sentiria falta disso, eu acho que ela até mesmo odeia a ideia de um casulo. Mas seus hábitos de trabalho e concentração foram determinados por pontos de referências que ela não podia ter aqui. Ela não fala francês, o que, apesar de nossos esforços, era a segunda língua mais falada no set, e ela estava imersa num ambiente estranho assim como estrangeiro: nós nunca ensaiamos – nenhuma leitura de antemão sequer – e as próprias tomadas estavam sempre mudando, nunca foram estáveis, sempre abertas para improvisos, para ser colocado em questão mesmo quando parecia muito forte. Até mesmo os sentimentos eram flexíveis. Uma cena escrita para ser dramática se tornava em algo mais leve, até mesmo divertido, outra construída ao redor de um ponto crucial que logo foi colocado fora de jogo. Desta forma, em uma cena onde Kristen tinha que se jogar na água foi desestabilizada quando Juliette, de repente, decidiu mergulhar primeiro na água gelada. Em suma, acabamos reinventando o filme enquanto filmávamos, livre quando se tratava do roteiro, assim como o estilo, ou a história: isso era impensável no sistema que Kristen estava acostumada.

Isto pode ter sido o resultado da personalidade de Juliette Binoche, pelo respeito que ela inspirava em Kristen; ela via um modelo em Juliette. Não no sentido de atriz modelo, mas mais como uma modelo de independência, de soberania, em relação às leis do cinema. Juliette tinha construído sua carreira sem se importar com as regras, expondo-se sem hesitação, sem se segurar, por se aventurar em direção à territórios desconhecidos, por arriscar em se perder. Bem no fundo, Kristen sabia, instintivamente, que apenas a libertada conta e que ela procurava em Juliette era a raiz dela, ela veio porque queria ser empurrada, porque queria se colocar em uma posição de perigo. Porque além de sua própria virtuosidade – o controle de si e de todas as nuances de sua atuação, que ela tinha aprendido por conduzir sua vida no mundo cinematográfico desde de criança – ela sabia que havia outra dimensão, uma de abandono, onde espontaneidade e a linguagem da imprudência estão tomando precedência. Às vezes, atores são motivados pela cinefilia, pelo reflexo de um artista de prestígio ou intelectualmente associado ao Cinema Independente – E não quero dizer isso somente na forma negativa, aquelas alianças podem, às vezes, ser mutualmente benéficas – mas não há um pingo de cálculo. O que a move, é a coragem, a determinação e o segredo de uma jovem atriz que descobre a força e a complexidade de sua arte, que sente-se conectada a zonas onde ela será capaz de experimentar, de trazer coisas à vida; e até mesmo o status que ela tem na indústria, a notoriedade da mídia fora dos padrões que adquiriu e que ela resiste mais do que se beneficia disso, colocaria-a numa posição, a manteria prisioneira para ser mais exato, num ambiente restrito, reduzido e com um resultado sufocante.

Eu estava falando sobre o segredo, acredito no mistério do que Kristen possui que é indecifrável, e as certezas não formuladas que eu tinha percebido durante nosso primeiro encontro, são exatamente essas: o que ela está se tornando, a si mesma, clandestinamente, por ir pelas estradas secundárias. Aplicando essa lei tátil que governa Hollywood – para ser livre, mas nunca confessar uma verdade que não segue as regras estabelecidas pela indústria. Passo a passo, ela está aprendendo como ser uma pessoa única, pensadora, uma figura de destaque no cinema americano, ela está inventando um local para si mesma – isso não é mais sobre provar algo, mas para cumprir o caminho que conta, na vida e na arte, um e outro são inseparáveis. Em suma, fazer tudo que até agora foi proibido.

Glamour (França) – Setembro

“Grandes estrelas, normalmente, tem pouco controle sobre o que acontece com elas. Elas são muito manipuladas por sua equipe, para quem é mais fácil, às vezes, deixar decidir. Kristen, ela, tem se recusado a isso. Ela quer manter o controle. Quando Charles mencionou seu nome para Sils Maria, eu achei a ideia interessante, mas não acreditei muito nisso. Este tipo de desejo de estrelas do calibre dela está frequentemente oscilando, raramente ultrapassa a fantasia. No entanto, aqui sim. E tudo, finalmente, se ajeitou muito facilmente.

Foi pitoresco, este guarda-costas no set, nas profundezas da Suiça. Mas também é esta notoriedade que dá poder a ela em Hollywood.

Ela tem essa mistura de liberdade, indiferença, e precisão diabólica. Nós sentimos que ela não trabalha, que ela ri com seus amigos, mas quando as câmeras estão ligadas, ela é milimetricamente precisa.”

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